Desova de contradições, trocadilhos infames e mentiras burlescas.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Café House Blues / Primeira Parte

Descia as ladeiras do Pilarzinho de bicicleta, eu e meu companheiro de serviço, a bicicleta do meu colega com pneus carecas os eixos com jogo e sem freio e eu nem tinha quitado a segunda parcela da minha, vento no rosto e vale no bolso, ingênuos e alegres, gritando e dando gargalhadas, quando um monza classic nos corta e dá um cavalo de pau na nossa frente, meu colega escapa por muito pouco de ser atropelado, ele dá duas aradas no meio fio e passa inacreditavelmente entre a lixeira e uma árvore só conseguindo parar se escorando na parede de uma banca de jornal na esquina, meus freios novos não tiveram o mesmo desempenho, acertei a lateral traseira do monza voando por cima do carro.


Levanto-me com as mãos e os joelhos ralados e olho a bicicleta toda retorcida no meio da rua, me volto cheio de fúria contra o motorista, era um senhor de aproximadamente setenta e poucos anos, ele aparentava estar mais nervoso do que eu e tinha acabado de acionar o portão eletrônico de sua casa, pergunto então se ele não tinha nos visto e como ia fazer para acertar meu prejuízo, ele sarcasticamente responde que se tem alguém que deve este alguém era o Fitipald das magrelas e que já tinha observado nossa imprudência ciclística há tempos, lamuriando argumento que nem havia pagado o meio que me levava ao trabalho, e com o rosto inchado de piedade me consola me deixando a par que o azar é única e exclusivamente meu, ah seu babaca, ele reage dizendo pra eu cair fora dali por que ele era da policia.


Reparo que ele trajava um bonito e novo terno, e respondo que ele podia ficar tranqüilo porque ali não havia como ele demonstrar seu digníssimo ofício pela falta de um bandido, ele solta o sinto e busca algo embaixo do banco, isso sim era um argumento irrefutável, meu orgulho imbecil já tinha comprado a causa e eu me resignei ao veredicto, ele puxa um ridículo cassetete de borracha há muito proibido de ser empregado pelos militares pelo motivo de camuflar hematomas, pisco pra ele endereçando-lhe um soco, minha misericórdia evita de acertá-lo, meu espírito sádico apenas se sacia ao ver o desespero do senhor se abaixando no banco do passageiro, meu colega me puxa pela camisa e o velho se levanta aflito procurando o portão escancarado e acelera.


Vou ao socorro da bicicleta, coloco-a no ombro atravesso a rua e paro na banquinha, olhando as revistas deparo com uma revista de blues, que me chama a atenção para o retrato da capa, era um senhor negro muito magro de óculos escuros e de chapéu e longos dedos segurando um violão sujo e tão castigado quanto seu rosto, seu terno era parecido com os ternos que meu avô alfaiate cortava, deixei dez por cento do meu soldo na banca, a revista era acompanhada de um disco desta figura e foi assim que eu conheci Sam Lightnin Hopkins, sem tv, sem rádio, sem previa informação de alguma publicação musical, sem enciclopédia, sem internet.


E toda vez que estou com ódio recorro aos discos dele, é só escutar os primeiros acordes de “Found my Baby Crying” para me sentir melhor, e me pergunto como seria possível sair daquele ser aparentemente tão frágil uma voz daquelas, rouca e potente, talvez ele fosse uma espécie de Deus do trovão africano, e quando ele batia seus pés no chão evocava seus poderes, fazendo sua voz parecer sair de dentro da terra.


Continua...

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Quem sou eu

CWB, PR
Olá! Meu nome é Mauricio Schultz sou curitibano de 1º de maio de 76, sou fanzineiro, nos anos bissextos é bem verdade, e nas horas vagas trabalho com comunicação visual, resolvi fazer este blog depois de certa relutância, sou pichador desde que me entendo por gente e comecei a fazer revistinhas aos 11 anos inspiradas na Chiclete com Banana, não na banda de axé apesar do estilo indicar natureza semelhante, mas como meu desenho era franzino expressivamente e por causa da minha maldita preguiça comecei a fazer HsQ (Histórias sem Quadrinhos) e resolvi só usar estes símbolos reconhecidos pelo pessoal que se comunica na língua portuguesa. Espero que se divirtam.