Desova de contradições, trocadilhos infames e mentiras burlescas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Histórias Extraordinárias

Ouvi tanto falar do corvo que fui procurar Poe na Biblioteca Pública, só achei “Do Grotesco e do Arabesco”, aquela versão de capa dura negra com um desenho da dama e do gato em dourado e marcador de página de seda, aonde a biografia do Edgar Allan vem acompanhada de seu retrato sinistro e a contra capa é assinada por Gustave Doré, aqui ele desenhou um cemitério assustador, ele também ilustrou uma edição da “Divina Comédia” de Dante, os desenhos do inferno, purgatório e céu são extraordinários, são literalmente do outro mundo.


Mas voltando a Edgar Allan Poe, loquei-lo o, era um daqueles verões atípicos em Curitiba, 32 graus, o centro como de costume, aquela loucura de gente estranha. Começo a ler suas “Histórias” já no ônibus, e a visão distorcida da casa de Usher refletida espelhada no lago de águas turvas me deixaram arrepiado, um gelo escorrega pela espinha, procurei a janela da condução para fechar, quando olho pra fora aquele céu azul limpo, o sol do meio dia trincando o coco, as meninas de roupa decotada, a senhora limpando com um lenço a testa úmida, escuto as doze badaladas, o veículo passa em frente à catedral e ela está suando e alva. Seus traços longos e retos, pontilhada de cruzes em seu cume a arquitetura da entrada central me deixam com receio, fecho o livro e sua capa me apresenta uma abóbada semelhante ao portal gótico.


Nesta data no trabalho cumpro o turno da madrugada, sozinho na firma volto ao livro, a sensação de frio retorna também, o vento assobia, hipnotizado pelo medo não percebo que meu itinerário havia sido cumprido, desligo as máquinas e continuo a escutar o silvo agudo. Dirijo-me à janela e sou golpeado no rosto por um vento de fio gelado, o céu se encontra aberto e eu e as estrelas nem piscamos, sacolas de plástico dançavam no asfalto como as figuras camponesas dos quadros do Bruegel o pai, a lua tinha uma áurea colorida, escuto a voz de uma coruja. São 2:30 da manhã, desço as ladeiras de bicicleta e perto de uma ameixeira morcegos voam rente a minha cabeça.


Já no lar não consigo dormir, abro o livro e continuo leitura, lá fora o vento leva folhas a fazerem barulhos de passos, o varal bate na janela, minha mãe se levanta para tomar água, eu estou dando gargalhadas altas no meio da madrugada, ela então bate na porta perguntando qual é a piada e eu volto à sanidade, tive ataque de riso no conto do “Gato Preto” aonde ele descreve de forma natural e fria como mata o bichinho de estimação da família. Agora fico com medo de mim mesmo, me convenço para eu dormir que não entendi a história.


E assumo minha ignorância não abrindo mais o livro, o devolvo para a biblioteca sem ter terminado, a temperatura do meu corpo retoma relações com o ambiente.


Mas outro dia procurando discos de vinil num sebo me deparo com uma edição mais antiga do livro de Poe, minha lombriga consumista não se controla e adquiro o livro junto a um disco de Bukka White.


Em casa coloco a bolacha na vitrola os estalos e os chiados da gravação começam a impregnar o chão e as paredes, o violão de aço corta o teto deslizando o gargalo de uma garrafa e desta fenda escuto tosses e a voz rascante e triste do padrinho do menino Rei diz “Fixin’to Die” abro o livro e o marcador de página está sinalizando exatamente no mesmo conto onde eu tinha parado na outra ocasião.

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Quem sou eu

CWB, PR
Olá! Meu nome é Mauricio Schultz sou curitibano de 1º de maio de 76, sou fanzineiro, nos anos bissextos é bem verdade, e nas horas vagas trabalho com comunicação visual, resolvi fazer este blog depois de certa relutância, sou pichador desde que me entendo por gente e comecei a fazer revistinhas aos 11 anos inspiradas na Chiclete com Banana, não na banda de axé apesar do estilo indicar natureza semelhante, mas como meu desenho era franzino expressivamente e por causa da minha maldita preguiça comecei a fazer HsQ (Histórias sem Quadrinhos) e resolvi só usar estes símbolos reconhecidos pelo pessoal que se comunica na língua portuguesa. Espero que se divirtam.